Rosângela Trajano

Nasce uma estrela sempre que se escreve uma poesia

Textos


Menino não trabalho, papai

Rosângela Trajano

 

Era uma vez um menino muito feliz com a vida e com as pessoas que viviam ao seu redor, pois elas lhes davam amor e o deixava mais intrigado com as suas perguntas fazendo novas perguntas em cima delas.

O menino estudava e brincava, somente. Passava a manhã na escola, tarde e pedaço da noite brincava com os seus brinquedos e com os seus amiguinhos na rua de casa que era um lugar tranquilo aonde as crianças ainda podiam brincar sem perigos.

Ele tinha apenas oito anos e ajudava a mamãe com as tarefas da casa: lavava a louça, colocava o lixo na rua para os garis levarem, varria o quintal e apanhava as folhinhas secas do seu velho cajueiro as colocando dentro de um grande balde verde e tirava as roupas do varal. Gostava de ajudar a mamãe porque ela tinha muitas tarefas e os seus avós já estavam cansados para a ajudarem.

O papai, muito machista, não gostava que o menino fizesse aquelas tarefas. Dizia ser coisa de mulher, tudo de casa era coisa para mulheres e que o menino devia aprender logo a fazer coisas de macho

- O que o senhor chama de coisa de macho, papai?

- Dirigir, trabalhar, jogar futebol!

- Eu não posso dirigir porque sou menor de idade, papai!

- Isso eu sei! Mas pode trabalhar! Vai me ajudar a partir de segunda-feira no trabalho!

- Não, papai! Eu também não posso trabalhar!

- Como não? Está me desobedecendo, seu cabra?

- Não é isso, papai! Estou falando dos meus direitos enquanto criança!

- Que diachos de direitos são esses? Por acaso você tem algum direito? Quem manda em você sou eu!

- Papai, o Estatuto da Criança e do Adolescente no seu Artigo 60 proíbe o trabalho infantil! Se eu for pego trabalhando o senhor pode até ser preso!

- Vai trabalhar comigo, sim! Não ligo para essas coisa de Lei. Isso não funciona no nosso país.

O menino não teve mais como argumentar com o seu pai e calou-se, pois ele estava muito bravo por pegá-lo passando o pano na cozinha enquanto a mamãe lavava uma pia de louças.

Na segunda-feira à noite, o pai mandou o menino se aprontar e o levou para o trabalho

- Enquanto eu tiro uma soneca você vigia o estacionamento. Não deixe ninguém estranho entrar. Qualquer coisa me chame.

- Papai, eu vou ficar acordado a noite toda?

- Vai, sim! Eu preciso dormir! Estou cansado! Muitos anos de trabalho duro para dar de comer a você, a sua mãe e aqueles velhinhos que só me dão despesas!

- Mas, papai, isso é trabalho insalubre! Eu não posso ficar sem dormir! Como vou estudar amanhã?

- Você é jovem! Está começando agora! Não vai ter sono amanhã! Agora deixe eu descansar um pouco e vigie o estacionamento direitinho!

O menino ficou acordado a noite inteira vigiando o lugar onde as pessoas guardavam os seus carros, sentado num banquinho de madeira. Cochilou algumas vezes, mas era despertado pelo barulho dos carros nas avenidas.

Quando amanheceu o dia, o pai acordou e o tirou do trabalho dizendo-lhe que era hora de voltar para casa. O menino estava sonolento e abria a boca várias vezes

- Você vai se acostumar, filho. O trabalho é bom para o homem. Isso, sim, é trabalho de macho.

- Papai, eu não posso trabalhar!

- Deixe de coisa, filho! Eu quem sei o que é melhor para você!

O menino foi para a escola morrendo de sono e não conseguiu assistir a aula toda. Acabou adormecendo na sala de aula. Isso se repetiu várias vezes durante o ano letivo. Ele vivia cansado e com sono. A sua aprendizagem estava fraca e as suas notas vermelhas. A professora ficou preocupada e chamou a mãe do menino para saber o que estava acontecendo, mas ela achou melhor não falar nada.

Quando a mãe do menino chegou em casa discutiu com o marido, não queria mais que o menino fosse trabalhar, pois estava sendo prejudicado na escola, mas o pai nem ligou para a conversa da mulher

- Macho tem que fazer trabalho de homem!

- Meu filho é apenas uma criança!

- Uma criança que come, usa roupas e sapatos, precisa de remédios! Tenho muitos gastos com ele! Vai trabalhar, sim! Eu sou o pai e sei o que é melhor para ele!

- Ele é somente um menino!

- Um menino já bem grandinho! Vá! Já está na hora de irmos trabalhar! Acorde ele que a noite hoje vai ser intensa com esse frio que está fazendo lá fora.

Naquela noite fria de inverno, o menino cobriu-se com um velho cobertor que a sua mãe lhe emprestou e ficou de olhos bem abertos para que ninguém estranho entrasse no estacionamento. Mas, quando o dia amanheceu chegaram dois homens vestidos de paletó e gravata à procura do pai dele

- Papai? Papai? Acorde! Acorde!

- O que foi, filho? O que está acontecendo?

- Tem dois homens aí fora querendo falar com o senhor!

O pai do menino, imediatamente, acordou, lavou o rosto e foi falar com os dois homens que já estavam impacientes

- Quem são vocês? O que querem de mim?

- Somos do Ministério Público! O senhor está preso por fazer o seu próprio filho trabalhar e ainda por cima ficar a noite inteira acordado!

- Que raios de Ministério Público é este?  Quem sabe o melhor para o meu filho sou eu!

- Vamos conosco, senhor! Não discuta! O garoto vai para casa!

- Quem foi contar para vocês que meu filho estava trabalhando comigo?

- Denúncia anônima, senhor! Ninguém faz nada escondido da justiça!

- Sempre tem uma fofoqueira no meio!

- Vamos, senhor! O garoto precisa descansar! Ele está morrendo de frio e de sono! O senhor o colocou além de trabalhar em condições insalubres.

- Ele é meu filho! Sei o que é melhor para ele!

- Não sabe mesmo! O Estatuto da Criança e do Adolescente garante os direitos deste menino! O senhor está preso em nome da Lei.

- Não prendam o papai! Não prendam o papai! Ele me ama!

- Calma, garoto! Ele logo será solto! Agora vamos levar você para junto da sua mãe.

O menino foi levado para casa e a mamãe o recebeu com um abraço apertado. Estava bastante preocupado com ele

- O que vão fazer com o papai, mamãe?

- Ele vai ser ouvido pela justiça. Depois será livre novamente.

- Ele não vai ficar preso muito tempo?

- Não! Não! Ele fez coisa errada. Deve pagar pelos seus erros.

- Eu avisei a ele que criança não pode trabalhar segundo a lei, mas ele não me ouviu.

- Criança não pode trabalhar mesmo! Agora você vai tirar uma soneca! Hoje é domingo e não tem aula!

O menino foi para o seu quarto bastante preocupado com o seu papai, mas o sono era tanto que acabou dormindo o dia inteiro. Quando acordou o papai já estava de volta todo bonzinho para com ele. Nem parecia o papai de antes

- Filho, me desculpe! Eu errei com você! Você é apenas uma criança e criança só deve brincar e estudar!

- Não precisa pedir desculpas, papai! O senhor só quis me ajudar!

- Vamos jogar uma pelada no quintal? O que acha?

- Acho uma grande ideia!

O papai e o menino foram jogar bola no quintal de casa, enquanto a mamãe e os avós conversavam sentados nas cadeiras da varanda diantes das estrelas e do céu azul que fazia naquela noite de domingo.

Que bom quando uma história termina feliz como nos contos de fadas! Criança não trabalha! Criança só brinca e estuda e mais nada! 

Rosângela Trajano
Enviado por Rosângela Trajano em 22/02/2023
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